Friday, October 24, 2008

Para começar...


A Paleografia é a ciência que estuda a escrita antiga em material perecível. Ou seja, na maioria das vezes, em pergaminho, papiro, ou papel...

Não é só uma ciência auxiliar da História, embora seja essencial ao estudo de qualquer investigador/historiador, mas é por si só uma ciência pois tem um método também, tem regras precisas...

Há sempre muita gente que me pergunta, quando digo que já acabei o curso, o que pretendo fazer com ele e, ao ouvir a resposta "ainda não sei bem, mas tem de ser ligado a Paleografia" torcem o nariz e após alguns segundos perguntam: "Isso é o quê, exactamente?".

Nem sempre é fácil explicar. Tento dizer o que é, por alto para não massacrar as pessoas, porque sei que a grande maioria delas, principalmente as da área de História, abominam Paleografia e foi a última cadeira que fizeram no curso. E à minha explicação do que é a Paleografia, as respostas vão desde "Ah, é ler aqueles livrinhos podres de velhos" até "já sei, traduzes aqueles documentos antigos cheios de pó e que ninguém pode ver porque estão trancados a sete chaves". É uma mistura das duas coisas (de uma forma leiga, claro).

É verdade que os documentos antigos geralmente são os dos livrinhos podres de velhos mas nem sempre são podres e também podem não ser assim tão velhos. Há obras em bom estado (nada comparáveis com as epígrafes da Sé de Lisboa que, essas sim, são uma vergonha para o País).
Há a mania de se dizer que se traduzem documentos quando se fala de Paleografia quando o que se faz é transcrever. Os documentos geralmente são já em português. São num português antigo e diferente, é verdade. É o que vão achar os nossos netos daqui a alguns anos agora com o acordo ortográfico, quando começarem a ler homem sem h, facto sem c, e por aí...
E ainda bem que esses documentos antigos estão trancados a sete chaves. A liberdade é muito engraçada, e é muito bom toda a gente ter acesso a tudo, mas basta ir à Biblioteca da minha Faculdade (e calculo que às das outras) para se ver livros com folhas rasgadas, sublinhadas, dobradas, e afins. Claro, não são edições que se comparem, mas pelos vistos são pessoas que vêem os livros como uma coisa para ser tratada como sua, como se mais ninguém os fosse ler ou consultar... Por isso gosto muito da ideia dos Reservados e da Torre do Tombo, e de todos os Arquivos que por aí andam e que não dão acesso fácil aos livros raros, porque há sempre quem pensa que pode fazer o que quer...

O que eu gosto na Paleografia, é o desafio. Cada documento é diferente do outro. É ir descobrindo as letras, formar as palavras, e reparar que a cada linha que se lê o texto se torna mais claro e mais fácil. De repente é como se nem sequer tivesse sido difícil começar a lê-lo!

Às vezes desespera, claro. Aparecem manchas que não sabemos se são letras, se são sinais de parágrafo, se são números, se são um sinal qualquer... Pode ser um borrão. Até pode ser um erro do autor!!! Ah, mas depois descobrimos que afinal era um resto de uma letra que começa centímetros abaixo mas que, como o texto é tão importante, a letra do início tem de ter pompa e circunstância!! (isto acontece mais nas fotocópias rascas do que nos originais, claro).


Acho que o "clique" se deu quando, no 2º ano da Faculdade, tive uma visita de estudo organizada pela Professora Dra. Filipa Avelar (excelente Paleógrafa) à Torre do Tombo. A ideia era vermos um filme, uns microfilmes de alguns documentos da época que estavamos a estudar, e nada mais. E aí surgiu um rapaz que tinha sido aluno dessa mesma professora e se ofereceu para nos levar aos Arquivos (sim, aos "ARQUIVOS"). Eu parecia uma criança na feira popular, agarrada a códices, a papiros, a pergaminhos e a papéis, a percorrer os kms e kms de corredores que a Torre do Tombo tem com milhares e milhares de livros e papéis e... PALEOGRAFIA POR TODO O LADO!! Fiquei siderada, a verdade é essa. As outras pessoas que iam também olhavam para tudo com um ar mais indiferente e eu a pensar "será que não estão a ver esta maravilha"?

Enfim, estou a entusiasmar-me demais e não vale a pena porque tenho a certeza que já perceberam a ideia. A cereja em cima do bolo foi quando pegamos no Tratado de Tordesilhas, o próprio, o verdadeiro, o legítimo (que estava ali, consta, para uma exposição qualquer, porque acho que costuma estar na Biblioteca Nacional). Estive com ele na mão durante um minuto, a olhar para ele, e foi aí que percebi que o clique do princípio da visita não era apenas um clique, era uma decisão de vida... Estava ali a segurar na História de Portugal, tinha de seguir aquilo, tinha de ir às fontes!

A História de Portugal é imensa em termos de tempo e a escrita em galaico-português vem desde D. Dinis (1261 - 1325). Mas antes disso já se falava na terra que viria a ser território português noutras línguas que, confesso, ainda não me aventurei a explorar.

A experiência que tive na Faculdade foi óptima, embora eu gostasse tanto tanto da matéria que acabei por me sentir sempre um passo à frente (no dia do último teste já tinha transcrito os textos medievais todos do nosso Album de Paleografia) e isso também não era agradável em relação aos outros. Tinha que me ir retraíndo aos poucos...

Com imensa pena minha nunca fiz as cadeiras de Paleografia Moderna, não fui a tempo antes do fim do curso.

Curiosamente, não foram documentos medievais os primeiros que transcrevi "a sério" (como trabalho remunerado, digo eu). Um deles era um projecto com uma editora, a Dislivro, mas que acabou por não ir adiante, e por isso não o pude completar, fazendo apenas à volta de 400 páginas.

Agora estou a trabalhar num documento na Biblioteca Nacional para um amigo meu, do século XVIII. Tem sido um desafio mas tem-me sabido muito muito bem!
Espero que continuem a aparecer sempre oportunidades, cada vez mais frequentes e cada vez maiores!

2 comments:

Madalida said...

Olá a todos os leitores! Eu sou a Madalena, irmã da Joana, e tenho-vos a dizer que a Joana tem MESMO jeito para Paleografia,não digo isto por ser irmã dela ou por ter sido subornada para lhe fazer publicidade (que não fui!). E o mais importante é que ela GOSTA MESMO de fazer este trabalho...e claro, quando se gosta muito de se fazer uma coisa, consegue-se maior prefeição.

Joana, Yo Go Girl!!

Thiago said...

Oi joana,ja tentei entrar em contato com vc,mas não consigo.Tambem transcrevo documentos antigos e atualmente achei um sinal,que ainda não havia encontrado no sec XVIII /: ,uma barra e dois pontos vc ja viu?
Desde ja agradeço e se precisar de minha ajuda farei o que poder.
Eva Pereira
Belem-Para/Brasil
eva_apereira@yahoo.com.br